A aquisição da linguagem e da fala das crianças – Desenvolvimento do bebê até 6 anos

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Com a chegada do bebê com fissura labiopalatina, surgem muitas dúvidas em relação ao desenvolvimento de sua fala:

“O bebê com fissura labiopalatina vai aprender a falar?”

SIM!! A aquisição da linguagem, responsável por aprender os nomes das coisas é dependente de uma boa condição cerebral e das vias auditivas (responsáveis pela chegada de grande parte das informações que nos cercam).

Um sorriso, o balbucio, as primeiras palavras com significado, todo o seu desenvolvimento diário é fonte de alegria sem fim e também um indicador de como está ocorrendo o desenvolvimento da fala e da linguagem desta criança. Estas etapas são fundamentais para que fale corretamente no tempo esperado (a partir de 18 meses de idade, época em que a maioria dos cirurgiões realizam a palatoplastia, exatamente por sabermos que a partir desta idade o numero de palavras e a intenção comunicativa aumenta significativamente.

Para compreendermos melhor como acontece este encantador processo de desenvolvimento da fala, vamos explicar a diferença entre linguagem e fala.

Linguagem

A linguagem é a capacidade de produzir e compreender os conceitos usados na comunicação. Por exemplo, ao ver a fotografia de um cachorro, graças às habilidades da linguagem a criança que já tenha tido uma experiência prévia com um cãozinho terá o acesso à memória desta vivência, assim como de outras informações que foram armazenadas a partir da mesma, como “é um bichinho”, faz “au au”, e tantas outras mais.

Fala

Já o ato de falar consiste em uma ação motora, por meio da qual expressamos nossos pensamentos e sentimentos. O ato de falar depende tanto de adequadas condições do Sistema Nervoso (cérebro e nervos), como também das estruturas da boca (palato, língua e dentes) e pregas vocais (responsáveis pela produção da voz).

Sabendo o que é linguagem, o próximo passo é conhecermos os indicativos de normalidade. Então, apresento os principais sinais a serem observados, de acordo com a idade da criança, independente se ela tem fissura labiopalatina ou não, lembrando que estas idades são referencias que podem ter pequenas variações.

Etapas do desenvolvimento da fala e da linguagem do bebê até 6 anos de idade

Até o 4o mês:

A partir da terceira semana, o choro do bebê começa a se diferenciar de acordo com suas necessidades (fome, dor, sono, etc).

Ao passar dos meses, observamos que a criança começa a interagir mais, prestando atenção aos sons, acalmando-se ao ouvir voz da mãe, sorrindo ao interagir com outras crianças ou adultos.

Dos 2 aos 4 meses durante o momentos de interação com o papai e a mamãe a criança responde à este momento de diálogo emitindo vocalizações, como “Aaaahhh”.

Do 4o ao 6o mês:

A partir do 4o mês de vida, observamos o balbucio, que nada mais é do que o brincar da criança com a voz, dando entonações e intensidades variadas às vocalizações já produzidas.

Do 6o mês ao 1o ano:

Em uma evolução, o brincar com a voz passa a ter a movimentação constate dos órgãos responsáveis pela produção das consoantes (lábios, língua e palato). O bebê começa a produzir não só vogais, mas também algumas sequências de consoantes e vogais (ainda sem o significado) como “angu” e “mamamama”.

Quanto à compreensão, podemos observar que a criança já responde quando é chamada pelo nome, sabe o significado de expressões simples como “não”, “tchau”, “dá”, “vem”, até ordens curtas, como “me dá a bola”.

De 1 a 2 anos:

Completando o primeiro ano de vida, surgem as primeiras palavras com significado. Geralmente são “mamãe” ou “papai” tanto pelo peso desta informação na vida do bebê quanto pelo falo de ambas serem formadas por consoantes cujos sons (fonemas) são de fácil produção.

Nesta idade a criança encontra-se em fase de aquisição de vocabulário, sendo mais acentuada a partir dos 18 meses. É a fase “esponjinha”, em que muito do que ouve ela aprende a falar. Ela já compreende o significado de diversos nomes (de pessoas, objetos e verbos) e consegue manter pequenos diálogos.

Vale lembrar que nesta fase de aquisição é comum que a criança fale as palavras erradas, pois ela ainda não aprendeu todos os sons das consoantes. Assim, neste período devemos nos atentar ao número de palavras que ela sabe, não tanto ao como ela fala.

Dos 2 aos 3 anos:

Neste período ocorre um importante aumento do vocabulário. Com cerca de 200 a 400 palavras, a criança começa a se expressar a partir de frases com 3 a 4 palavras. Por exemplo: “qué comer não” ou “brincá bola vamu?”.

Já consegue contar pequenas histórias, com a ajuda de um adulto, bem como representar suas atividades diárias em brincadeiras com bonecos e de “casinha”.

Dos 3 aos 4 anos:

Seu vocabulário está ainda maior (com até 600 palavras). Assim, já é possível observamos o uso de preposições (ex. em cima, com e atrás), plural, sentimentos e frases longas (até 6 palavras) no presente, passado e futuro. Mantém um diálogo sem dificuldades, e as histórias que conta têm mais detalhes. Apesar de ter ainda algumas trocas de letras, sua fala é facilmente compreendida.

Dos 4 aos 5 anos:

Já conta histórias sem a ajuda do adulto ou de figuras. Usa com facilidade frases maiores, com adequada noção de tempo e condições (“eu só vou brincar se for de carrinho”). Ainda apresenta dificuldade na flexão verbal em alguns momentos, mas é facilmente compreendida pois fala praticamente todos os fonemas.

Abaixo, uma referência do que esperar quanto à produção dos fonemas, de acordo com a idade, segundo Wertzner, 2000.

IDADE FONEMAS referente às letras
3 anos p, t, k, b, d, g,

f, s, x, v, z, j,

l, r (arara)

m, n, nh

4 anos lh, s (ao final da sílaba ex, pasta, festa)
4 – 5 anos r em encontro consonantal (ex. Prego, frio)
4 – 6,6 anos l em encontro consonantal (ex. planta, clube)
5,6 anos R (ao final da sílaba ex, carta, perto)

Esta tabela deve ser consultada como uma referência, não uma regra! Casos que se distanciem das idades apresentadas devem procurar uma avaliação fonoaudiológica completa, pois diversos fatores podem levar a um atraso na aquisição dos sons da fala. Nos casos dos bebês com a fenda palatina, pode ser um alerta para uma investigação mais aprofundada dos ouvidos e audição do bebê. Verificar se ele está com otite e se esta está prejudicando sua audição é importante para compreendermos os motivos do atraso de linguagem, como a Dra Ema Yonehara explicou em seu artigo “Otite: não tem que doer para ter!!”.

Observo também que muitas vezes a superproteção e um ambiente pouco desafiador para esta criança também podem limitar o desenvolvimento da linguagem da criança, pois se tudo o que ela precisa ou quer chega em suas mãos em poucos segundos, ela não tem a necessidade de falar, ficando mais quieta e usando os gestos com maior frequência.

Para estes casos em que a criança está demorando para aprender a falar, pequenos ajustes na rotina e no brincar da criança podem promover importante avanço no desenvolvimento da linguagem. Em nosso próximo artigo vamos falar sobre estratégias que as famílias podem fazer em casa para estimular a linguagem e também a fala correta da criança com fissura labiopalatina.

Enquanto isso, se quiserem ler mais sobre o assunto, sugiro a visita ao Portal dos Bebês, elaborado por professores e alunos de Fonoaudiologia e Odontologia da USP. (http://portaldosbebes.fob.usp.br/)

Abraços,

Daniela Barbosa

Fonoaudióloga da rede As Fissuradas

2 comentários sobre “A aquisição da linguagem e da fala das crianças – Desenvolvimento do bebê até 6 anos

  1. Sou mãe da Marina de 01 ano e 03 meses, ela nasceu com fissura bilateral lábio e palato completa. Marina vai operar no inicio de Maio o Palato Mole, já fez a primeira cirurgia (no Centrinho em Bauru) aos 04 meses e fechou as fissuras no lábio, em outubro/2015 fez a cirurgia do palato Duro.
    Gostaria de saber se aos 01 anos e 04 meses ela estará com o Palato todo fechado, se ela tem chances de não ficar fanha e ter um desenvolvimento normal da fala, ou se por precaução devo procurar tratamento preventivo com uma Fono.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Carina, os principais fatores que interferirão no funcionamento da musculatura da garganta para a fala adequada são: época em que fez a cirurgia, experiência do cirurgião e técnica utilizada. Mesmo assim há alguns casos que, infelizmente, desenvolvem características da “fala fanhosa”. Sabemos também que a forma como a família estimula a linguagem também pode favorecer para o desenvolvimento da fala adequada.
      Se tiver possibilidade, converse com um fonoaudiólogo experiente em fissuras labiopalatinas para que ele possa orientá-la sobre as estratégias de estimulação da fala.
      Um abraço nosso!
      Daniela Barbosa
      Fonoaudióloga

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