Como estimular a fala do bebê com fenda palatina

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A primeira coisa que as famílias de crianças com fissura labiopalatina ouvem ao chegar em um centro especializado é a explicação sobre os motivos por aguardar o crescimento do bebê para a realização das intervenções cirúrgicas necessárias.

O princípio básico é o respeito ao crescimento e desenvolvimento natural que o corpo do bebê terá ao passar dos meses. Se compararmos em fotos o tamanho da cabeça do bebê recém-nascido e aos 6 meses de idade, teremos a constatação do quanto a criança cresce nos primeiros meses de vida.

Nos casos de fenda palatina, a cirurgia geralmente ocorre entre 12 e 18 meses de idade. O palato mole, porção final do palato, é a principal parte do palato, responsável pela fala, uma vez que os músculos que o compõem ao receberem o estímulo do cérebro, se contraem fazendo com que toda a porção final do palato mole se eleve e vá em direção à garganta, encostando-se nela e separando completamente a boca do nariz. Essa simples ação é a grande responsável para que a voz não seja hipernasal (popularmente denominada como fanhosa) e a criança aprenda a articular corretamente na boca os sons da fala.

palato

Anatomia do palato (popularmente conhecido como céu da boca).

Então, o que é possível fazer nestes 12 meses iniciais, enquanto aguardamos a idade da palatoplastia? A resposta é simples: brincamos e estimulamos a linguagem.

Ninguém aprende a andar, se não for colocado à situação que promova tal ato motor. Uma criança que fica o tempo todo no colo, berço, cadeirinha, possivelmente terá dificuldades em dar os primeiros passos. Devemos ter um raciocínio semelhante em relação à fala: uma criança que passa horas quietinha diante da televisão passivamente assistindo programas infantis, ou que ao apontar as coisas que deseja já as recebe em suas mãos não estão sendo colocadas em situação adequada de fala, pois elas não estão precisando expressar suas vontades com sua voz.

O fato de estar com o palato aberto não quer dizer que esta criança não pode ter sua linguagem estimulada. Algumas pequenas mudanças são sugeridas para que ensinemos a criança a fazer os sons corretamente, sem o risco do ensinarmos articulações erradas (cujo som não representa nenhuma letra da nossa Língua ).

Vamos brincar?!

Para a adequada estimulação da linguagem é preciso interagir e brincar com a criança. O melhor jogo, a boneca mais linda, de nada adiantará se simplesmente entregarmos para a criança e a deixarmos brincando sozinha ou, se formos somente coadjuvantes na brincadeira, entregando as pecinhas ou perguntando as cores das mesmas.

Ao entrarmos na brincadeira da criança passamos a ser modelo e recrutadores de sua fala, pois no lúdico ensinaremos o “por favor”, o “obrigado”, o “que gostoso” e tantas outras expressões simples na brincadeira da comidinha com as bonecas, por exemplo. Então, se a criança te oferece um pratinho, você diz “obrigada” e em uma ação semelhante, oferece outro prato a ela e aguarda que ela tente emitir algo parecido. Se emitir, reforce de forma positiva e dê a resposta à fala dela (“de nada!”).

Se você deu o modelo e ela não correspondeu, tudo bem! Isso nos diz que em uma próxima atividade podemos tentar novamente a mesma expressão, porém com estratégias (brinquedos) diferentes. Não é necessário, nem saudável, ficar pedindo a ela que repita o que acabamos de dizer (“Obrigada” … filha, fale “obrigada”)! Isso só gerará uma situação de estresse para adulto e criança.

Outro momento rico para a estimulação é a rotina diária da criança. Na hora do banho, podemos ser o modelo e ensinar as partes do corpo, nomeando onde estamos ensaboando. Na hora da refeição, ensinamos os nomes dos alimentos, “quente”, “frio”, “gostoso”, e tantas outras palavras.

Vale lembrar algumas dicas:

– Ao falar com a criança, mantenha sempre o contato de olhos, se precisar, abaixe à altura dela, pois assim ela além de ouvir o que lhe é dito, também vê a movimentação de lábios e língua de cada fonema (sons das letras) e tem a pista da sua expressão facial.

– Fale sempre corretamente com a criança, afinal, somos o modelo! Então, nada de calçar o “papato” ou pentear o “bebelo”.

– Respeite o nível da criança, buscando conversar com ela de assuntos de seu conhecimento ou que ela já tenha tido algum tipo de vivência.

– Respeite o tempo da criança para falar. Como ela ainda não sabe muitas palavras, às vezes pode demorar um pouco mais até formar a resposta à estimulação. Nada de interrompê-la.

– As brincadeiras mais concretas são mais ricas. Então, podemos dar um descanso para os vídeos da Galinha Pintadinha, Pepa e joguinhos virtuais e literalmente colocar a mão na massa, ou melhor, no brinquedo.

Vamos entender um pouco mais o que é possível fazer nas primeiras etapas da vida da criança:

Brincadeiras estimulantes para bebês de 0 a 6 meses:

Nesta idade, o bebê mais observa do que emite. É como se ele estivesse aprendendo e armazenando para em alguns meses, começar a tentar reproduzir o que viu.

– Durante o banho do bebê, nomeie as partes do corpo que você está lavando; reproduza o barulho que a água faz ao cair na banheira (“xxxxxxx”).

– Na hora das refeições, podemos mostrar como está gostoso falando “huuummm, que gostoso”, mostrar como sopra para esfriar a comida.

– Quando ele estiver chorando, fale com ele sobre o que ele está sentindo, por exemplo, “ai que fome, mamãe”, “você está com sono, a mamãe sabe”.

– Com o bebê em frente ao espelho, brinque de aparecer e desaparecer, dizendo “achou!”.

– Os brinquedos para esta idade são sonoros ou de luzes como chocalhos e móbiles que estimulam as habilidades auditivas e visuais.

Brincadeiras estimulantes para bebês de 7 a 12 meses

A partir desta idade podemos de forma mais direcionada, abordar a fala do bebê com a fenda palatina ainda não operada. Quando a criança estiver fazendo os sons pela boca e dando aqueles gritinhos, o adulto deverá tampar o nariz dele. Para isso basta apertar as narinas do bebê de forma suave e rápida, por várias vezes. Ele vai sentir algo muito parecido com quando imitamos índio, tampando a boca rapidamente por várias vezes, enquanto falamos “uuuuuuu”.

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Exemplo de oclusão das narinas do bebê com fenda palatina. (Fonte: http://sorrisofonoaudiologia.blogspot.com.br/2015/01/tratamento-da-fala-da-crianca-com.html)

– Quando a criança estiver brincando, peça a ela com ordem simples que ela dê o brinquedo a você ou outra pessoa.

– Brinque de imitar sons variados (vibrar os lábios como o som do caminhão, por exemplo)

– Ensinar o bebê a dar tchau e mandar beijo.

– Ao trocá-lo, dê ordens simples e ensine-o os movimentos que ele deve fazer (levante a perna, agora a outra, etc)

– Mostrar livros simples, de plástico ou tecido, nomeando os animais e partes do corpo.

Brincadeiras estimulantes para crianças de 1 a 2 anos

Nesta idade temos as primeiras palavras com significado. Enquanto o palato estiver aberto, podemos dar preferencias às palavras com “m” (mamãe, mamá, meu, mão), “n” (nenê) pois estes são sons que naturalmente devem ter a participação do nariz, então o palato aberto tem menor prejuízo. Outras palavras contendo “p” ou “v” têm mais riscos pois para elas é preciso que não tenha nenhuma participação do nariz, ou seja, que a voz produzida no pescoço siga somente para a boca. Se quiser brincar com estes sons, podemos faze-lo com a oclusão das narinas. Ao chamar o “papai” ou a “vovó”, podemos criar o hábito da criança fazer tampando o próprio nariz. E sim, eles aprendem tal ato e muitos fazem sozinhos, por perceberem que a voz fica mais forte do que quando ela sai pelo nariz!

Após a palatoplastia

O período de cicatrização da cirurgia no palato é de aproximadamente 30 dias. Porém, os músculos que foram reposicionados na cirurgia levam um tempo um pouco maior para recuperar a força adequada.

Após a palatoplastia, vamos ensinar a criança a fazer sons que saiam somente pela boca, assim ela recrutará de forma intensa a musculatura do palato mole que aos poucos conseguirá tocar o fundo da garganta e separar completamente a boca do nariz, como se fosse um sobrado onde a porta para o segundo andar passa a fechar completamente.

Para aprender, a criança terá os adultos como modelo. Uma forma simples que podemos usar é exagerar para falar algumas palavras. Por exemplo, ao nomear o pé o adulto vai falar enchendo as bochechas o máximo possível ao pronunciar o “p”, ao chamar pela vó, falaremos algo parecido com “vvvvvvvvvvvó” (com um ‘”v” bem longo).

bochecha-inflada

Exemplo do quão exagerado podemos falar o som da letra “p” (Fonte: http://www.saudecuriosa.com.br/4-dicas-para-levantar-as-bochechas-caidas/)

 

Até os 2 anos de idade, a criança encontra-se em um processo de aprendizado constante de novas palavras. E é sempre bom lembrar que este aprendizado ocorre melhor quando a criança vivencia com prazer repetidos momentos de estimulação. Então … sigamos brincando com elas!

Abraços,

Fonoaudióloga Daniela Barbosa

6 comentários sobre “Como estimular a fala do bebê com fenda palatina

  1. adorei o conteudo , tenho uma filha com uma fenda palaitina e não tinha conhecimento desses exercicios todos, embora ja faço alguns para estimular a fala dela.

    muito obrigado

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigrada, pelas informações. Mas, gostaria que vcs me tirassem uma dúvida. Meu sobrinho nasceu com fendapalatina, possui 2 anos e 3 meses, ouve e anda bem, porém, pronucia apenas, mamãe…Com quantos anos ele saberá falar corretamente? Existem possibilidades de fala?

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    • Oi Vanderléia, a fenda palatina não justifica o atraso do desenvolvimento da linguagem do seu sobrinho.
      O desenvolvimento da linguagem/fala comum leva à produção das primeiras palavras com significado dos 12 aos 23 meses. A partir dos 2 anos de idade espera-se que a criança comece a formar frases curtas, como “é meu”, “me dá”, “tchau mamãe”.
      Ao ser observada esta demora, deve-se procurar um fonoaudiólogo para avaliação e, se necessário, tratamento para evitar um atraso maior.
      Um abraço
      Daniela Barbosa
      Fonoaudióloga

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    • Oi Milene,
      Difícil falar de exercícios sem avaliar! Em linhas gerais, se ela fala as letras trocando por sons que se assemelham a soquinhos no pescoço, ou raspados na garganta, é indicado que inicie o tratamento fonoaudiológico para correção destas articulações.
      Exercícios gerais para a voz podem ser considerados como tudo que a faça usar mais a boca (e não a garganta e o nariz), como fazer o barulho da sirene da polícia (iuiuiuiuiuiuiu), brincar de encher a bochecha de ar e soltar com um barulho parecido com “u” são algumas das sugestões.
      Um abraço,
      Daniela Barbosa
      Fonoaudióloga

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