Como estimular a fala do bebê com fenda palatina

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A primeira coisa que as famílias de crianças com fissura labiopalatina ouvem ao chegar em um centro especializado é a explicação sobre os motivos por aguardar o crescimento do bebê para a realização das intervenções cirúrgicas necessárias.

O princípio básico é o respeito ao crescimento e desenvolvimento natural que o corpo do bebê terá ao passar dos meses. Se compararmos em fotos o tamanho da cabeça do bebê recém-nascido e aos 6 meses de idade, teremos a constatação do quanto a criança cresce nos primeiros meses de vida.

Nos casos de fenda palatina, a cirurgia geralmente ocorre entre 12 e 18 meses de idade. O palato mole, porção final do palato, é a principal parte do palato, responsável pela fala, uma vez que os músculos que o compõem ao receberem o estímulo do cérebro, se contraem fazendo com que toda a porção final do palato mole se eleve e vá em direção à garganta, encostando-se nela e separando completamente a boca do nariz. Essa simples ação é a grande responsável para que a voz não seja hipernasal (popularmente denominada como fanhosa) e a criança aprenda a articular corretamente na boca os sons da fala.

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Anatomia do palato (popularmente conhecido como céu da boca).

Então, o que é possível fazer nestes 12 meses iniciais, enquanto aguardamos a idade da palatoplastia? A resposta é simples: brincamos e estimulamos a linguagem.

Ninguém aprende a andar, se não for colocado à situação que promova tal ato motor. Uma criança que fica o tempo todo no colo, berço, cadeirinha, possivelmente terá dificuldades em dar os primeiros passos. Devemos ter um raciocínio semelhante em relação à fala: uma criança que passa horas quietinha diante da televisão passivamente assistindo programas infantis, ou que ao apontar as coisas que deseja já as recebe em suas mãos não estão sendo colocadas em situação adequada de fala, pois elas não estão precisando expressar suas vontades com sua voz.

O fato de estar com o palato aberto não quer dizer que esta criança não pode ter sua linguagem estimulada. Algumas pequenas mudanças são sugeridas para que ensinemos a criança a fazer os sons corretamente, sem o risco do ensinarmos articulações erradas (cujo som não representa nenhuma letra da nossa Língua ).

Vamos brincar?!

Para a adequada estimulação da linguagem é preciso interagir e brincar com a criança. O melhor jogo, a boneca mais linda, de nada adiantará se simplesmente entregarmos para a criança e a deixarmos brincando sozinha ou, se formos somente coadjuvantes na brincadeira, entregando as pecinhas ou perguntando as cores das mesmas.

Ao entrarmos na brincadeira da criança passamos a ser modelo e recrutadores de sua fala, pois no lúdico ensinaremos o “por favor”, o “obrigado”, o “que gostoso” e tantas outras expressões simples na brincadeira da comidinha com as bonecas, por exemplo. Então, se a criança te oferece um pratinho, você diz “obrigada” e em uma ação semelhante, oferece outro prato a ela e aguarda que ela tente emitir algo parecido. Se emitir, reforce de forma positiva e dê a resposta à fala dela (“de nada!”).

Se você deu o modelo e ela não correspondeu, tudo bem! Isso nos diz que em uma próxima atividade podemos tentar novamente a mesma expressão, porém com estratégias (brinquedos) diferentes. Não é necessário, nem saudável, ficar pedindo a ela que repita o que acabamos de dizer (“Obrigada” … filha, fale “obrigada”)! Isso só gerará uma situação de estresse para adulto e criança.

Outro momento rico para a estimulação é a rotina diária da criança. Na hora do banho, podemos ser o modelo e ensinar as partes do corpo, nomeando onde estamos ensaboando. Na hora da refeição, ensinamos os nomes dos alimentos, “quente”, “frio”, “gostoso”, e tantas outras palavras.

Vale lembrar algumas dicas:

– Ao falar com a criança, mantenha sempre o contato de olhos, se precisar, abaixe à altura dela, pois assim ela além de ouvir o que lhe é dito, também vê a movimentação de lábios e língua de cada fonema (sons das letras) e tem a pista da sua expressão facial.

– Fale sempre corretamente com a criança, afinal, somos o modelo! Então, nada de calçar o “papato” ou pentear o “bebelo”.

– Respeite o nível da criança, buscando conversar com ela de assuntos de seu conhecimento ou que ela já tenha tido algum tipo de vivência.

– Respeite o tempo da criança para falar. Como ela ainda não sabe muitas palavras, às vezes pode demorar um pouco mais até formar a resposta à estimulação. Nada de interrompê-la.

– As brincadeiras mais concretas são mais ricas. Então, podemos dar um descanso para os vídeos da Galinha Pintadinha, Pepa e joguinhos virtuais e literalmente colocar a mão na massa, ou melhor, no brinquedo.

Vamos entender um pouco mais o que é possível fazer nas primeiras etapas da vida da criança:

Brincadeiras estimulantes para bebês de 0 a 6 meses:

Nesta idade, o bebê mais observa do que emite. É como se ele estivesse aprendendo e armazenando para em alguns meses, começar a tentar reproduzir o que viu.

– Durante o banho do bebê, nomeie as partes do corpo que você está lavando; reproduza o barulho que a água faz ao cair na banheira (“xxxxxxx”).

– Na hora das refeições, podemos mostrar como está gostoso falando “huuummm, que gostoso”, mostrar como sopra para esfriar a comida.

– Quando ele estiver chorando, fale com ele sobre o que ele está sentindo, por exemplo, “ai que fome, mamãe”, “você está com sono, a mamãe sabe”.

– Com o bebê em frente ao espelho, brinque de aparecer e desaparecer, dizendo “achou!”.

– Os brinquedos para esta idade são sonoros ou de luzes como chocalhos e móbiles que estimulam as habilidades auditivas e visuais.

Brincadeiras estimulantes para bebês de 7 a 12 meses

A partir desta idade podemos de forma mais direcionada, abordar a fala do bebê com a fenda palatina ainda não operada. Quando a criança estiver fazendo os sons pela boca e dando aqueles gritinhos, o adulto deverá tampar o nariz dele. Para isso basta apertar as narinas do bebê de forma suave e rápida, por várias vezes. Ele vai sentir algo muito parecido com quando imitamos índio, tampando a boca rapidamente por várias vezes, enquanto falamos “uuuuuuu”.

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Exemplo de oclusão das narinas do bebê com fenda palatina. (Fonte: http://sorrisofonoaudiologia.blogspot.com.br/2015/01/tratamento-da-fala-da-crianca-com.html)

– Quando a criança estiver brincando, peça a ela com ordem simples que ela dê o brinquedo a você ou outra pessoa.

– Brinque de imitar sons variados (vibrar os lábios como o som do caminhão, por exemplo)

– Ensinar o bebê a dar tchau e mandar beijo.

– Ao trocá-lo, dê ordens simples e ensine-o os movimentos que ele deve fazer (levante a perna, agora a outra, etc)

– Mostrar livros simples, de plástico ou tecido, nomeando os animais e partes do corpo.

Brincadeiras estimulantes para crianças de 1 a 2 anos

Nesta idade temos as primeiras palavras com significado. Enquanto o palato estiver aberto, podemos dar preferencias às palavras com “m” (mamãe, mamá, meu, mão), “n” (nenê) pois estes são sons que naturalmente devem ter a participação do nariz, então o palato aberto tem menor prejuízo. Outras palavras contendo “p” ou “v” têm mais riscos pois para elas é preciso que não tenha nenhuma participação do nariz, ou seja, que a voz produzida no pescoço siga somente para a boca. Se quiser brincar com estes sons, podemos faze-lo com a oclusão das narinas. Ao chamar o “papai” ou a “vovó”, podemos criar o hábito da criança fazer tampando o próprio nariz. E sim, eles aprendem tal ato e muitos fazem sozinhos, por perceberem que a voz fica mais forte do que quando ela sai pelo nariz!

Após a palatoplastia

O período de cicatrização da cirurgia no palato é de aproximadamente 30 dias. Porém, os músculos que foram reposicionados na cirurgia levam um tempo um pouco maior para recuperar a força adequada.

Após a palatoplastia, vamos ensinar a criança a fazer sons que saiam somente pela boca, assim ela recrutará de forma intensa a musculatura do palato mole que aos poucos conseguirá tocar o fundo da garganta e separar completamente a boca do nariz, como se fosse um sobrado onde a porta para o segundo andar passa a fechar completamente.

Para aprender, a criança terá os adultos como modelo. Uma forma simples que podemos usar é exagerar para falar algumas palavras. Por exemplo, ao nomear o pé o adulto vai falar enchendo as bochechas o máximo possível ao pronunciar o “p”, ao chamar pela vó, falaremos algo parecido com “vvvvvvvvvvvó” (com um ‘”v” bem longo).

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Exemplo do quão exagerado podemos falar o som da letra “p” (Fonte: http://www.saudecuriosa.com.br/4-dicas-para-levantar-as-bochechas-caidas/)

 

Até os 2 anos de idade, a criança encontra-se em um processo de aprendizado constante de novas palavras. E é sempre bom lembrar que este aprendizado ocorre melhor quando a criança vivencia com prazer repetidos momentos de estimulação. Então … sigamos brincando com elas!

Abraços,

Fonoaudióloga Daniela Barbosa

A beleza a mais que nós temos

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Uma ideia veio e pousou na minha mente quando li o comentário de uma jovem sobre sua fissura. Ela dizia que a cicatriz é uma “beleza a mais que ela tem” reconhecida inclusive por várias pessoas.

A beleza é um termo muito usado para questões estéticas, mas tanto beleza quanto estética vão além, realmente muito além, do físico, do visual ou da imagem. Podemos encontrar no dicionário colocações sobre beleza como qualidade, propriedade, caráter ou virtude do que é belo, ou ainda descrito como caráter do ser ou da coisa, que desperta sentimentos de êxtase e admiração.

Então fica evidente que esta ideia de “beleza a mais” diz muito e logo percebemos a relação entre admiração e ao belo. Podemos nos perguntar então, existe beleza numa cicatriz?

Quando somos impactados pelo inesperado e recebemos a notícia da fissura, um grande trabalho psíquico inicia-se. Somos chamados a elaborar nossas ideias, superar a surpresa e procurar ajuda. Enfrentamos o medo, a dor, a angústia, mas também a esperança e alívio.

Assim surgem as primeiras cicatrizes. Algo que estava solto e sem sentido entra em conexão, criamos outros significados para nossas ações e buscamos alternativas. A cicatriz, marca visível de superação e enfrentamento, também é marca de um caminho percorrido e torna-se um capítulo de uma história de vida que está ali, claramente expressa.

E sobre histórias é bom lembrar o quanto elas são importantes. Necessitamos de histórias para alma, como de alimento para o corpo. Elas sustentam os fatos são elos encadeados de vivências e criam possibilidades de novos desfechos. As histórias de superação alimentam nossos corações e fornecem energia para ir adiante, principalmente, histórias verdadeiras de gente real.

Acredito que algumas pessoas tenham a sensibilidade de expressar toda sua admiração ao se deparar com a cicatriz da fissura, outras talvez não. Então algumas percebem em um instante que ocorreu uma batalha e que foram superadas várias dores e desilusões, mas que tudo foi possível de ser reparado e ir adiante.

Assim a admiração cria a beleza.

A beleza desta cicatriz, “uma beleza a mais” combina muito bem com uma ideia de Thomas Merton bastante difundida por Steven Dubner, palestrante e fundador da ADD – Associação Desportiva para Deficientes.

Ele coloca que a “ distância mais longa é entre a cabeça e o coração” e exemplifica relacionando com atletas olímpicos e paralimpicos.

Steven Dubner diz em um artigo na sua revista:

“Você pode ter certeza que a maior distância não é a percorrida em uma Maratona com 42 quilômetros ou a de um Ironman que faz 3.8 km de natação, mais 180,2 km de ciclismo e mais 42,2 km de corrida. Ou até mesmo a Caminhada de Compostela (algo em torno de 850 km). A distância mais longa é entre a cabeça e o coração. Parece absurdamente simples e quando você realmente entender é fatal, é como se fosse um “click” tudo se encaixa. É um grito que desperta para as infinitas possibilidades do que cada ser humano pode vir a ser. Pode começar pelo modo como você encara o mundo. http://www.parasports.com.br/revistas

Revista Parasports.Edição Nro 1. Outubro/Novembro 2013

Desta forma a superação diária de várias pessoas em diversas situações de vida nos encanta.

Não se surpreenda com pessoas que admirem sua cicatriz, elas certamente conseguem ver além. Veem o que é possível ser realizado e que a decisão foi sua de ir em frente. Ser o que quiser ser.

Qual sua opinião? Conte-me!

Grande abraço

Cristiane de Paula Vieira – Psicóloga

CRP 07/08159

A aquisição da linguagem e da fala das crianças – Desenvolvimento do bebê até 6 anos

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Com a chegada do bebê com fissura labiopalatina, surgem muitas dúvidas em relação ao desenvolvimento de sua fala:

“O bebê com fissura labiopalatina vai aprender a falar?”

SIM!! A aquisição da linguagem, responsável por aprender os nomes das coisas é dependente de uma boa condição cerebral e das vias auditivas (responsáveis pela chegada de grande parte das informações que nos cercam).

Um sorriso, o balbucio, as primeiras palavras com significado, todo o seu desenvolvimento diário é fonte de alegria sem fim e também um indicador de como está ocorrendo o desenvolvimento da fala e da linguagem desta criança. Estas etapas são fundamentais para que fale corretamente no tempo esperado (a partir de 18 meses de idade, época em que a maioria dos cirurgiões realizam a palatoplastia, exatamente por sabermos que a partir desta idade o numero de palavras e a intenção comunicativa aumenta significativamente.

Para compreendermos melhor como acontece este encantador processo de desenvolvimento da fala, vamos explicar a diferença entre linguagem e fala.

Linguagem

A linguagem é a capacidade de produzir e compreender os conceitos usados na comunicação. Por exemplo, ao ver a fotografia de um cachorro, graças às habilidades da linguagem a criança que já tenha tido uma experiência prévia com um cãozinho terá o acesso à memória desta vivência, assim como de outras informações que foram armazenadas a partir da mesma, como “é um bichinho”, faz “au au”, e tantas outras mais.

Fala

Já o ato de falar consiste em uma ação motora, por meio da qual expressamos nossos pensamentos e sentimentos. O ato de falar depende tanto de adequadas condições do Sistema Nervoso (cérebro e nervos), como também das estruturas da boca (palato, língua e dentes) e pregas vocais (responsáveis pela produção da voz).

Sabendo o que é linguagem, o próximo passo é conhecermos os indicativos de normalidade. Então, apresento os principais sinais a serem observados, de acordo com a idade da criança, independente se ela tem fissura labiopalatina ou não, lembrando que estas idades são referencias que podem ter pequenas variações.

Etapas do desenvolvimento da fala e da linguagem do bebê até 6 anos de idade

Até o 4o mês:

A partir da terceira semana, o choro do bebê começa a se diferenciar de acordo com suas necessidades (fome, dor, sono, etc).

Ao passar dos meses, observamos que a criança começa a interagir mais, prestando atenção aos sons, acalmando-se ao ouvir voz da mãe, sorrindo ao interagir com outras crianças ou adultos.

Dos 2 aos 4 meses durante o momentos de interação com o papai e a mamãe a criança responde à este momento de diálogo emitindo vocalizações, como “Aaaahhh”.

Do 4o ao 6o mês:

A partir do 4o mês de vida, observamos o balbucio, que nada mais é do que o brincar da criança com a voz, dando entonações e intensidades variadas às vocalizações já produzidas.

Do 6o mês ao 1o ano:

Em uma evolução, o brincar com a voz passa a ter a movimentação constate dos órgãos responsáveis pela produção das consoantes (lábios, língua e palato). O bebê começa a produzir não só vogais, mas também algumas sequências de consoantes e vogais (ainda sem o significado) como “angu” e “mamamama”.

Quanto à compreensão, podemos observar que a criança já responde quando é chamada pelo nome, sabe o significado de expressões simples como “não”, “tchau”, “dá”, “vem”, até ordens curtas, como “me dá a bola”.

De 1 a 2 anos:

Completando o primeiro ano de vida, surgem as primeiras palavras com significado. Geralmente são “mamãe” ou “papai” tanto pelo peso desta informação na vida do bebê quanto pelo falo de ambas serem formadas por consoantes cujos sons (fonemas) são de fácil produção.

Nesta idade a criança encontra-se em fase de aquisição de vocabulário, sendo mais acentuada a partir dos 18 meses. É a fase “esponjinha”, em que muito do que ouve ela aprende a falar. Ela já compreende o significado de diversos nomes (de pessoas, objetos e verbos) e consegue manter pequenos diálogos.

Vale lembrar que nesta fase de aquisição é comum que a criança fale as palavras erradas, pois ela ainda não aprendeu todos os sons das consoantes. Assim, neste período devemos nos atentar ao número de palavras que ela sabe, não tanto ao como ela fala.

Dos 2 aos 3 anos:

Neste período ocorre um importante aumento do vocabulário. Com cerca de 200 a 400 palavras, a criança começa a se expressar a partir de frases com 3 a 4 palavras. Por exemplo: “qué comer não” ou “brincá bola vamu?”.

Já consegue contar pequenas histórias, com a ajuda de um adulto, bem como representar suas atividades diárias em brincadeiras com bonecos e de “casinha”.

Dos 3 aos 4 anos:

Seu vocabulário está ainda maior (com até 600 palavras). Assim, já é possível observamos o uso de preposições (ex. em cima, com e atrás), plural, sentimentos e frases longas (até 6 palavras) no presente, passado e futuro. Mantém um diálogo sem dificuldades, e as histórias que conta têm mais detalhes. Apesar de ter ainda algumas trocas de letras, sua fala é facilmente compreendida.

Dos 4 aos 5 anos:

Já conta histórias sem a ajuda do adulto ou de figuras. Usa com facilidade frases maiores, com adequada noção de tempo e condições (“eu só vou brincar se for de carrinho”). Ainda apresenta dificuldade na flexão verbal em alguns momentos, mas é facilmente compreendida pois fala praticamente todos os fonemas.

Abaixo, uma referência do que esperar quanto à produção dos fonemas, de acordo com a idade, segundo Wertzner, 2000.

IDADE FONEMAS referente às letras
3 anos p, t, k, b, d, g,

f, s, x, v, z, j,

l, r (arara)

m, n, nh

4 anos lh, s (ao final da sílaba ex, pasta, festa)
4 – 5 anos r em encontro consonantal (ex. Prego, frio)
4 – 6,6 anos l em encontro consonantal (ex. planta, clube)
5,6 anos R (ao final da sílaba ex, carta, perto)

Esta tabela deve ser consultada como uma referência, não uma regra! Casos que se distanciem das idades apresentadas devem procurar uma avaliação fonoaudiológica completa, pois diversos fatores podem levar a um atraso na aquisição dos sons da fala. Nos casos dos bebês com a fenda palatina, pode ser um alerta para uma investigação mais aprofundada dos ouvidos e audição do bebê. Verificar se ele está com otite e se esta está prejudicando sua audição é importante para compreendermos os motivos do atraso de linguagem, como a Dra Ema Yonehara explicou em seu artigo “Otite: não tem que doer para ter!!”.

Observo também que muitas vezes a superproteção e um ambiente pouco desafiador para esta criança também podem limitar o desenvolvimento da linguagem da criança, pois se tudo o que ela precisa ou quer chega em suas mãos em poucos segundos, ela não tem a necessidade de falar, ficando mais quieta e usando os gestos com maior frequência.

Para estes casos em que a criança está demorando para aprender a falar, pequenos ajustes na rotina e no brincar da criança podem promover importante avanço no desenvolvimento da linguagem. Em nosso próximo artigo vamos falar sobre estratégias que as famílias podem fazer em casa para estimular a linguagem e também a fala correta da criança com fissura labiopalatina.

Enquanto isso, se quiserem ler mais sobre o assunto, sugiro a visita ao Portal dos Bebês, elaborado por professores e alunos de Fonoaudiologia e Odontologia da USP. (http://portaldosbebes.fob.usp.br/)

Abraços,

Daniela Barbosa

Fonoaudióloga da rede As Fissuradas

Quando iniciar a higiene oral nos bebês?

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A higiene oral no recém-nascido e bebês sem dentes tem a finalidade de manter a boca limpa, ou seja, sem restos alimentares ou de leite. Como não tem dente, não há risco de ter cárie, sendo assim, a frequência será conforme a necessidade.

De acordo com alguns estudos, para o bebê que tem aleitamento materno exclusivo (seja no peito ou na mamadeira), a higienização oral não precisa ser tão excessiva, uma vez que o leite materno protege a boca do recém-nascido.

Antes do primeiro dentinho nascer, orientamos higienizar a gengiva e língua com uma gaze ou ponta da fralda enrolada no dedo indicador, umedecida em água filtrada para ficar mais macia. Essa limpeza pode ser iniciada já no recém-nascido, tenha cuidado para não colocar o dedo na parte posterior da língua para não causar náusea no bebê.

Assim que o primeiro dentinho aparecer na boca essa limpeza deverá ser diária pois tendo dente, pode ter cárie! Após a refeição, inicia-se a formação da placa bacteriana, bactérias começam a aderir nos dentes, podendo assim causar cáries e outros problemas bucais, portanto a escovação diária inibirá sua ação, se possível realizar mais de uma vez ao dia, principalmente para dormir. Continua da mesma forma com a gaze ou fralda, limpando bem o dentinho, gengiva e língua.

A escovação terá início quando houver vários dentes na boca, o que dificulta realizar a higiene com gaze ou fralda e, por volta de 1 ano e meio de idade, quando nascer o primeiro molar de leite (dente de trás, mais redondinho e maior), a escovação deverá ser exclusiva. Nesta idade, a gaze e fralda se tornam ineficazes, pois há necessidade das cerdas para limpar os sulcos e reentrâncias que têm nesses dentes. Junto com a escova, inicia o uso do creme dental com flúor, sempre em pequena quantidade (equivalente a um grão de arroz ).

Para o dente próximo à região da fissura, a limpeza se faz normalmente, não se preocupe pois não causará dor ou incômodo a criança.

A higiene bucal é um hábito que deve fazer parte da rotina de todos nós!

Ilka Rojas Soares

Odontopediatra

Otite: não tem que doer pra ter!

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Muitas das Mães Fissuradas já sofreram muito com problemas de ouvido de seus filhos…

Mas qual a ligação do ouvido com a fissura palatina?

O ouvido possui um canal de ligação com o nariz e a garganta, chama-se tuba auditiva. Ela ajuda na circulação adequada de ar dentro do ouvido. O palato ajuda essa tuba auditiva a ficar mais esticadinha, fazendo com que ela funcione melhor.

Quando há algum problema no palato (como a fenda palatina), a tuba não consegue funcionar bem, o que altera a quantidade de ar e pressão dentro do ouvido. Então, começa a acumular líquido dentro dele, e, quando este permanece por muito tempo, ocorre o que chamamos de Otite Média de Efusão ou Otite Média Serosa.

O processo ocorre de forma lenta, e por isso, muitas vezes, a criança nem percebe, não sente dor. A queixa mais comum da criança é de sentir o ouvido tapado, ou de não estar escutando bem, ou, quando bebês, colocar a mão no ouvido frequentemente. A dor costuma aparecer somente quando ocorre uma infecção desse líquido que está parado há muito tempo, por uma gripe, um resfriado, uma sinusite, por refluxo gastro-esofágico, ou outros problemas.

A presença do líquido no ouvido pode piorar a audição da criança, comprometendo seu desenvolvimento da linguagem, aprendizado e rendimento escolar. Além disso, facilita a ter mais infecções no ouvido.

Assim, a criança pode ter um problema de ouvido, mesmo sem se queixar de dor! Problemas na escola, distração, falar alto, sensação de ouvido entupido, bebê ficar mais quietinho, mãos aos ouvidos constantemente, choro cuja causa não é identificada… tudo isso pode ser um sinal de que o ouvido do seu filho não está bem. Por isso, Mamães Fissuradas, levem seu filho ao otorrinolaringologista rotineiramente, para que ele possa detectar qualquer problema o quanto antes!

Ema Yonehara

Otorrinolarignologista

Os sorrisos que iluminam. Por que falamos tanto no sorrir?

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A resposta talvez pareça obvia, sorrir é uma capacidade necessária é um gesto agradável e afetivo.  Está presente nos contatos sociais e representa uma atitude comunicativa. Sendo assim o sorriso iluminado representa muito para quem convive com a Fissura Labiopalatina.

Logo que você recebeu a surpreendente notícia que seu bebê terá fissura, após o impacto desta surpresa e de pensar em tantos porquês, buscará por informações e tratamentos.

Vocês irão saber tudo sobre o que está disponível e conhecerão o caminho do tratamento que inclui consultas com médicos, cirurgião, dentista, fonoaudiólogo, psicólogo enfim, uma grande equipe interdisciplinar.

Talvez no início desta caminhada, o seu coração poderá estar cheio de dúvidas e medos e pensará mais na fissura do que no sorriso. Pode até esquecer de sorrir por um tempo. Mas logo, logo perceberá os tantos motivos que tem para sorrir!

Sem dúvida que os benefícios das cirurgias e tratamentos corretivos ampliarão e reabilitarão a função de comer, falar e sorrir, porém, quero convidar a pensar sobre os amplos aspectos desta reabilitação.

O sorrir que aqui se coloca retrata a possibilidade de expressar uma emoção, ou melhor, vários sentimentos. É um gesto espontâneo que vem da alma. É a ação que pode unir o olhar, a mente e conectar as pessoas. Por isso sorrir também é acreditar. Sempre sorrimos para alguém.

O olhar cumplice, o companheiro inseparável do sorriso sem vergonha, dará forças para enfrentar os desafios.

É assim que pais entregarão seus pequenos para a primeira, segunda e tantas outras cirurgias e procedimentos. Cheios de receios e de esperanças.

Certamente, alguém lhe sorrirá e dividirá suas experiências, contará suas histórias, mostrará suas fotos e então trocarão temores, olhares e sorrisos sinceros.

Cada passo dessa caminhada será uma conquista. Cada uma terá um sabor especial. Os pais depositarão sua confiança na equipe, no médico, no hospital, na família que será seu suporte. Ninguém está sozinho! Somos uma Rede!

Os profissionais se abastecerão dos mais singelos olhares agradecidos, dos sorrisos corajosos de seus pacientes e das palavras de reconhecimento que chegarão espontaneamente. Essa é a fonte da força para seguir trabalhando, o recompensador sorriso de agradecimento. Posso confessar aqui, que isto é o melhor retorno que todo profissional recebe.

Então o que precisamos para sorrir? Uma vida onde tudo esteja exatamente no lugar, onde “tudo tenha dado certo”, onde nenhuma surpresa assustadora tenha nos visitado?

Já sabemos e sentimos que não. A vida é repleta de surpresas que estão sempre nos assustando, mesmo as aparentemente boas ou supreendentemente impensadas.

Reabilite seu sorriso antes de tudo, reabilite este gesto espontâneo dentro de você. Depois disso, todos os outros sentimentos e gestos poderão transitar e fluir naturalmente.

Quando a capacidade de sorrir sem vergonha se der, a fissura será uma cicatriz repleta de vitórias.

Grande Abraço

Cristiane de Paula Vieira

Psicóloga CRP 07/08159

Conversando sobre o preconceito

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Este texto nasceu de alguns posts que li sobre a angústia de algumas mães e relatos de alguns adultos sobre como viveram e vivem o preconceito sobre a Fissura Labiopalatina. Sobre a dor de ver seu filho envergonhado com comentários de colegas e de quem, com ajuda profissional, transformou tudo isso em outro sentimento, o sentimento de orgulho.

É sempre muito importante conversar com seu filho sobre as experiências vividas. Sobre o que aconteceu na escola, no restaurante, no supermercado ou no parque e de como ele vem se sentido. Não falar torna o assunto misterioso ou proibido e assim ficará mais difícil de ser compreendido.

O seu filho ou filha pode pensar que “isto é um peso para você e que já sofreu demais”. Pode pensar em poupa-los, achar que é melhor não falar sobre o que sente. Mas isso pode criar dois mundos solitários. O mundo dos pais que não sabem ou não querem falar e o mundo dos filhos, onde suas dúvidas e medos ficam guardados com eles próprios.

Não pense que há necessidade de ter a “solução” ou a resposta das respostas. Não é isto que vai aproxima-los e tornar o “time” mais forte, mas a cumplicidade de saber que se pode conversar.

Então, qual o poder desta conversar?

O poder está na intimidade, na verdade e na cumplicidade. A função da mãe, do pai, de familiares, dos educadores e de amigos é acolher e transformar. Principalmente os familiares ou pessoas afetivamente significativas.

Ao ouvir e acolher as angustias podemos transformar e devolver estes sentimentos em algo compreensivo e amoroso. Através desta postura receptiva podemos ir “metabolizando” os acontecimentos junto com a criança ou adulto. Isso torna estas vivências mais acessíveis a mente, sendo fundamental para lidar com todos os desafios que virão.

Lidar com a fissura, no aspecto psicológico, é algo que exige uma postura aberta e nisto todos saímos ganhando. É desafiador e doloroso, mas impulsiona ao crescimento.

Talvez a grande dificuldade seja a reação das outras pessoas frente a dor e ao inesperado. Algumas destas podem aprisionar-se nesta dor ou ficar tão surpreendidas que não conseguem ver as possibilidades. Nosso desafio é abrir estas perspectivas.

É aí que o seu olhar pode e faz toda diferença para seu filho. Um olhar que vê além e que vai mostrar além também.

Dizemos aos nossos filhos o que pensamos sobre eles, sobre nós e o mundo pela maneira que olhamos e agimos. É um olhar repleto de significado.

Algumas vezes podemos ter um discurso aberto, mas o olhar pode transmitir um outro sentimento. Essa coerência entre nossa fala e nosso sentimento é que seu filho vai perceber. Preste atenção nisto e pense muito como você está sentindo e vendo o seu filho.

Lembre-se que sua reação será o espelho do que aquilo significa. Mente aberta a ouvir, dividir o momento e ampliar os significados é uma poderosa arma.

Quando sofremos algum tipo de preconceito, isto também pode ser entendido como uma “visão saturada” e fechada. Precisamos então, fazer um trabalho mental e emocional sobre o assunto saturado. Qualquer um está sujeito a isto. Não só o seu pequeno, não só sobre a fissura. Este é um desafio da nossa sociedade, aprender a lidar com as diferenças e com o novo.

É preciso compreender que nem todas as pessoas saberão como reagir, isto é inevitável. Lembre-se que somos indivíduos cheio de histórias pessoais e familiares e com capacidade própria para lidar com aquilo que nos desafia.

Informe-se! Converse! Procure pessoas! Procure os grupos onde possa trocar experiências, falar das suas e ouvir histórias. Procure também um profissional da saúde emocional! Isto poderá fazer toda diferença em sua vida.

Grande Abraço

Cristiane de Paula Vieira

Psicóloga CRP 07/08159

Chegou a hora, a cirurgia está marcada! Vamos lá?

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Está chegando o momento tão esperado e ao mesmo tempo tão desafiador. Chegou o momento da cirurgia reparadora do lábio ou palato.

Você receberá várias orientações para a preparação e entre elas a substituição do uso da mamadeira para o copo/ colher. Mas, por que fazer isto agora? Por que, se ele ou ela, irá sofre na recuperação? Por que antecipar o sofrimento?

Queridos pais, em nossos corações sempre mora o desejo de proteger nossos filhos de todo e qualquer sofrimento, mas também é natural ajudar seus filhotes a crescer e ir adiante.

Todos nós, para crescermos, precisamos de estímulo e de adaptação.

Hoje, quando dedicadamente preparam seus filhos para cirurgia, estão transmitindo algo especial. Que pode ser muito difícil num primeiro momento, mas que será fundamental depois. Ensinam que podem acompanhar as mudanças, ensinam que eles têm “ferramentas” para subir novo degrau e entrar em outra fase!

Sim, ao adaptar seu filho ao copo ou mamadeira de colher, você estará auxiliando para o bom resultado da cirurgia, boa recuperação e também ensinando como enfrentar desafios no futuro. E todos sabemos que negar as mudanças ou evita-las pioram muito as coisas.

Para seu filho, ao saber que aquela mudança virá para melhor, que pode ser difícil no início, mas que será conquistada aos poucos e que você está lá para ver, fará a diferença!

Pense na situação ao contrário, você acordando de uma cirurgia e não estar preparado para alimentar-se, não entender o que está acontecendo, nem o porquê. Posso lhes dizer que a sensação de desorientação pode ser muito pior, psicologicamente, para seu filho do que o treino da mudança. É mais fácil neste momento pós cirúrgico ter algo conhecido, que já foi apresentado, treinado do que algo totalmente novo.

Claro que tudo isso será acompanhado de muita conversa. Seu pequeno ou pequena entende o que você fala. Entenderá suas palavras com seus gestos, seu afeto e seu olhar!

Lembre-se que você está preparando seu filho em todos os sentidos e psicologicamente também para o futuro.

Lembre-se que não estão sozinhos nisto! Prepare seu filho e depois nos conte como foi!

Abraços,

Cristiane de Paula Vieira

Psicóloga

CRP 07/08159

Tudo vai dar certo

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Deise Coimbra escreveu para As fissuradas contando como tudo vai dar certo!

“Olá Mamães!! Eu sou Deise e minha bebê nasceu com fissura bilateral preforame. Hoje quero deixar a mensagem para que não fiquem tão preocupadas em como ficará a cirurgia, pois a medicina está bem avançada e os médicos são ótimos. Minha filha faz tratamento pelo SUS em Curitiba. Sua primeira cirurgia foi aos 3 meses (hoje ela tem 4 meses). A foto abaixo com duas semanas de operada. Sua recuperação foi muito tranquila, acredito que ela não sentia dor, pois não chorava e claro ficava medicada. O único trabalho que deu foi no próprio hospital quando perdeu a veia em que os medicamentos eram aplicados e aí foi um Deus nos acuda para encontrar outra. Então… calma… tudo dará certo! Abraços!!!”