PRECISAMOS FALAR DE FISSURA LABIOPALATINA

WhatsApp Image 2017-05-04 at 19.42.05

Dr. Diógenes Laércio Rocha com a pequena Ana Clara Sakavicius.

Fissuras são fendas que podem comprometer o lábio de um lado ou dos dois com alterações no nariz, o palato ou ainda o lábio, gengiva e palato.

Atualmente, na grande maioria dos casos, as fendas labiais são diagnosticadas no ultrassom por volta da 20ª semana de gestação (diga-se que as fendas do palato raramente podem ser diagnosticadas) ou ainda ao nascimento.

Constatado o diagnóstico, este cai como um raio sobre a família e as perguntas, dúvidas e apreensões aparecem: Como aconteceu? Por quê? De onde veio? A mãe: o que eu fiz de errado? O que se faz agora, etc. E as dúvidas e inseguranças crescem.

Conforto e orientações por profissionais experientes no tratamento devem ser buscados e deve-se evitar conselhos e explicações de “palpiteiros” e da internet que podem criar mais dúvidas e inseguranças do que benefícios.

É importante que se esclareça que no processo de formação da face, que ocorre nas 10 a 12 semanas de gestação, saliências (chamadas processos mandibulares, maxilares e nasofrontal) se formam ao redor do orifício que irá constituir a boca e estas saliências crescem em direção ao centro. As saliências inferiores unem-se formando a mandíbula e o lábio inferior. Da mesma forma as saliências laterais da face (maxilares) unem-se com uma saliência central que cresce de cima para baixo (e irá formar o nariz e a parte central do lábio). Esta união das saliências laterais com a central é que forma o lábio superior e a gengiva e isto pode ser constatado no lábio pelas duas “elevações” (chamadas cristas filtrais) existentes, partindo do nariz até o vermelhão do lábio que são as “marcas” desta união. O mesmo ocorre com o palato em que as saliências laterais (maxilares) crescem para o meio e para cima unindo-se e formando o palato duro e mole, deixando uma linha branca central (parece uma cicatriz) presente nos não fissurados.

Ora, se o lábio e o palato formam-se pela união destas saliências podemos tirar algumas conclusões: 1) TODOS NÓS tivemos estas fendas no lábio e palato em um período durante nosso processo de formação. 2) Algo ocorre durante a fase de união destes processos que impede esta união, formando-se as fissuras. 3) Se todos tivemos fendas/fissuras durante nossa formação, a única diferença existente entre os fissurados e os não fissurados é a existência das fendas. Portanto: os fissurados são seres normais em que pura e simplesmente as uniões por algum motivo não ocorreram nos momentos certos, fazendo com que as fendas permanecessem abertas, fendas estas que estiveram existentes em todos os seres não fissurados durante um período da vida.

Entendendo este processo de formação ficam as perguntas seguintes: Por que aconteceu? De que família veio? O que foi feito de errado. A Medicina ainda não tem definida uma causa determinada para esta falha na união dos processos faciais. Estudos caminham para tentar definir as causas que poderão ser as mais variadas possíveis e, portanto, hoje as causas são definidas como multifatoriais, em que fatores diversos podem interferir neste delicado e complexo processo de união das saliências faciais durante as 10 a 12 semanas iniciais de gestação em que o embrião tem no máximo 30 a 40 milímetros.

O que fazer feito o diagnóstico? A ideia inicial é operar para fechar a fenda. O tratamento não é só operar/fechar a fissura. Ele compreende um tratamento que engloba vários profissionais, portanto multiprofissional.

Dentro da ideia de fechar a fenda/operar existe a proposição de fazê-la nas primeiras horas, ainda na maternidade. Este não é um procedimento adotado pela quase totalidade dos centros mundiais que concordam que o fechamento do lábio e correção do nariz deva ser feito alguns meses após o nascimento, quando a criança está mais desenvolvida, com maior peso, as estruturas ósseas faciais estão mais rígidas, as fendas estão mais estreitas e os tecidos mais desenvolvidos, possibilitando melhores resultados a longo prazo: este é o ponto que deve ser ressaltado, pois o tratamento se estende desde o nascimento até o final da adolescência, sendo que procedimentos inadequados feitos no início da vida poderão causar deformidades de difícil correção futura.

Outra dúvida frequente e preocupante para a família é como o recém-nascido vai se alimentar com a fenda. O aleitamento é perfeitamente possível em qualquer tipo de fissura com os devidos cuidados e é neste momento que, além do cirurgião que examina o recém-nascido, as orientações do pediatra e do fonoaudiólogo são fundamentais para, além de tranquilizarem a família, orientarem quanto à forma e os cuidados no aleitamento.

Nas fissuras só do lábio e gengiva, o aleitamento no seio materno é perfeitamente possível e desejável, não representando nenhum problema sendo o método de escolha. Caso as condições do bico do seio materno não sejam favoráveis, assim como na ausência do leite materno, o uso de mamadeiras é possível. O bico mais indicado é o da “chuquinha” por se assemelhar ao bico do seio materno.

Nas fissuras que comprometem o palato (com ou sem o lábio) já há alguma dificuldade no aleitamento, mas é perfeitamente possível. Algumas maternidades costumam usar uma sonda passada pela boca indo ao estômago para inicialmente administrar líquidos. Esta sonda não deve permanecer muito tempo, sendo geralmente retirada nas primeiras 24/48 horas assim que o recém-nascido comece a desenvolver o processo de amamentação, que deve ser testado, estimulado e geralmente acompanhado pelo fonoaudiólogo. Algumas destas crianças conseguem aleitamento no seio materno, mas nas que não o consegue, o leite (preferencialmente materno retirado com bombas, ou o artificial orientado pelo pediatra) deve ser administrado com a criança em posição semi sentada e com a mamadeira “chuquinha”.

Deve-se ater que as crianças com fenda palatina engolem mais ar que as sem a fenda e, por este motivo, “arrotam” mais e o intervalo entre as mamadas deve ser diminuído para 2 a 2 horas e meia, conforme o caso. O controle da efetividade da alimentação é feito pelo ganho de peso que inicialmente deve ser feito diariamente e, assim que esteja em aumento constante, passa a ser semanal (mesmo em casa) para que se tenha noção do constante ganho de peso.

Nas crianças que têm a fenda do palato, é normal que saia leite ou regurgite pelo nariz devido à comunicação entre a boca e o nariz pela fissura e as pessoas têm a ideia que este leite no nariz vá para os pulmões. Isto não é verdade, pois o órgão que separa o que vai para o estômago ou para os pulmões é a laringe que está no pescoço, que é normal e sem relação com a fenda palatina sendo, portanto, este temor infundado. Porém é preciso ter sempre em mente que a criança, como outra qualquer, pode engasgar.

Uma vez que esta criança esteja em boas condições clínicas, inicia-se o tratamento cirúrgico, sempre acompanhado por profissionais especializados:

  • Cirurgia do lábio e nariz entre os 3 a 6 meses de idade;
  • Cirurgia do palato entre 1 a 1 ano e meio (acompanhamento pela fonoaudiologia);
  • Caso a fala fique fanhosa: cirurgia de faringoplastia;
  • Correção da falha óssea da gengiva entre 9 a 11 anos (acompanhamento pela ortodontia);
  • Ortodontia corretiva;
  • Caso haja alteração do crescimento da maxila e mandíbula: cirurgia óssea da face após a finalização do crescimento;
  • Caso necessário: cirurgia estética do nariz e retoques finais.

Não há dúvida que é um tratamento longo que envolve uma equipe de profissionais especializados e muito empenho e dedicação do paciente e sua família. Mas, enquanto tudo isto é realizado, nada impede que o paciente tenha uma vida absolutamente normal e participativa.

 

Dr. Diógenes Laércio Rocha – Mestre e Doutor pelo Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo, Assistente Doutor do Hospital das Clínicas na Disciplina de Cirurgia Plástica da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo. Atuou como Cirurgião Plástico do HRAC-USP (Centrinho de Bauru). É Especialista em Cirurgia Plástica pela Associação Médica Brasileira e Conselho Regional de Medicina, certificado na Área de Atuação de Cirurgia Crânio Maxilo Facial pela Associação Médica Brasileira e Conselho Regional de Medicina. É Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Membro Fundador e Titular da Associação Brasileira de Cirurgia Crânio Maxilo Facial, Membro da Federación Ibero Latino Americana de Cirugía Plástica e Membro da International Plastic Reconstructive Aesthetic Surgery. Atua voluntariamente como Cirurgião Plástico da Operação Sorriso (Operation Smiles) e da Smile Train.

Aleitamento materno ordenhado – Dicas de uma mãe que manteve a ordenha nos primeiros 12 meses de seu filho

Doacao-ordenha-leite-materno.jpg

Meu nome é Maria Cristina, tenho 39 anos e sou mãe do Luis Henrique, que nasceu em outubro de 2015 com fissura lábio-palatina unilateral completa à esquerda. Recebemos o diagnóstico da fissura labial ao fazermos um ultrassom com 18 semanas de gestação, e tivemos a confirmação de fenda do palato com 32 semanas, em um ultrassom 4D.

Chorei muito quando recebi a notícia da fissura, uma semana antes do meu casamento. Luis Henrique é o nosso primeiro bebê, muito amado e desejado, e eu tinha todos os sonhos de mãe de primeira viagem, queria muito poder amamentar no seio. Até o dia do diagnóstico que confirmou a fenda, eu rezava desesperadamente todos os dias para que a fissura se restringisse somente ao lábio. Mas Deus tinha outros planos para nós…

Eu queria muito poder amamentar meu filho, e como não foi possível, resolvi tirar meu leite com bomba para poder dar a ele. Por causa da fenda, ele já havia perdido a incrível conexão do aleitamento no peito, e eu queria que ele pudesse receber os benefícios do leite materno.

Tem sido uma longa jornada, já se foram 11 meses e 20 dias tirando leite com bomba elétrica, e como encontrei muito pouca informação em português (livros, comunidades e blogs sobre o tema são todos em inglês), resolvi escrever este texto sobre como extrair leite materno com bomba, na esperança de poder ajudar outras mães na mesma situação.

Comecei a tirar leite com bomba elétrica no banco de leite do hospital. Antes de o Luis Henrique nascer, já haviam me adiantado que as chances de ele mamar no seio seriam praticamente nulas, mas eu me apegava à esperança de um milagre. Talvez se tivesse me preparado melhor antes, teria conseguido produzir mais leite (nunca conseguir tirar o total de que ele precisava por dia, mas sempre acreditei que um pouco de leite materno é melhor do que nada). Alguns diziam para eu tirar leite com a bomba, mas que logo secaria porque a bomba não estimula tanto a produção de leite como a sucção do bebê.

Bom, após muito ler e participar de uma comunidade no Facebook intitulada “Exclusively Pumping for Cleft Cuties” (tradução livre: Bombeando leite exclusivamente para lindinhos fissurados), descobri que sim, é possível tirar leite com bomba por longos períodos (em alguns casos, 2 anos ou mais), e que algumas mulheres conseguem tirar até 2,5l de leite por dia, doando o excedente ou congelando para fazer um estoque.

Nota: Exclusively Pumping ou EPing é o termo em inglês utilizado para designar as mulheres que tiram leite com bomba e não amamentam no seio, pelas mais diversas razões: fissuras de palato, dificuldade de pega, prematuros que foram alimentados por muito tempo com sonda, etc. São mães e mulheres guerreiras que assumem o compromisso de tirar leite para seus filhos porque preferem dar leite materno a usar fórmulas artificiais.

E como isso é possível?

Seguem aqui as principais dicas que compilei:

  1. Quanto antes você se preparar, melhor.

Se receber um diagnóstico na gestação sobre possíveis impedimentos na amamentação no seio, conheça suas alternativas: tipos de bombas, valores, tempo que você passará tirando leite, etc.

  1. Comece cedo

Assim como na amamentação no seio, quanto antes for iniciado o bombeamento, maior o estímulo na fase em que os hormônios que estimulam a lactação estão em alta, melhor será a tendência de produzir bastante leite ao longo do tempo. Mesmo que o bebê não consiga pegar o peito, a estimulação do contato da língua dele no seio já na sala de parto é muito poderosa. Se a maternidade tiver banco de leite, procure logo que puder andar. A maternidade onde dei a luz tinha banco de leite, mas eu não recebi orientação de ir ordenhar, e só iniciei a extração no 2o. dia após o parto, por iniciativa minha.

  1. Dê preferência a bomba elétrica de extração dupla

Para quem quer tirar leite materno por bastante tempo, uma boa bomba elétrica de extração dupla é fundamental. Tirar leite consome muito tempo da rotina diária, então tirar leite das duas mamas ao mesmo tempo torna-se uma questão de sobrevivência. No hospital eu usei uma bomba da Medela, a Lactina Select, e quando fui para casa aluguei uma bomba menor, chamada Pump In Style Advanced, também da Medela, nos primeiros meses. Depois pedi para um amigo trazer essa mesma bomba dos Estados Unidos, pois esses itens são bem mais baratos lá. Um parênteses: nos Estados Unidos os seguros-saúde pagam o aluguel de bombas hospitalares em casos de necessidade médica, como os de bebês que nascem com fissuras. Por isso as mães lá contam com excelentes opções para tirar leite materno. Ainda estamos muito longe disso por aqui… Um detalhe importante: a maioria das bombas compradas nos EUA são 110 V. Para usar em cidades com voltagem de 220 V o melhor é comprar uma fonte bivolt, pois o motor da bomba perde potência de sucção se usado com um transformador normal (eu aprendi isso a duras penas, quase tive uma mastite).

Captura de Tela 2017-02-07 às 00.49.00.png

Bomba Lactina Select da Medela Bomba Pump In Stle Advanced (PISA)da Medela

Acessórios fundamentais:

Um sutiã ou bustiê que deixe as mãos livres mantém a sanidade mental. O bustiê mantêm os extratores no lugar, deixando suas mãos livres para ninar o bebê, dar mamadeira, checar seus e-mails ou, como no meu caso, massagear as mamas para maximizar a extração de leite. Existem produtos específicos no mercado (eu tenho esse da foto), mas muita mulheres fazem uma versão caseira recortando tops de ginástica justos, e funciona bem.

Captura de Tela 2017-02-07 às 00.50.28.png            Sutiã “Hands free pumping bra

  1. Ter mais de um par de kit extrator também é muito útil, principalmente no começo, em que se recomenda bombear de 8 a 10 vezes por dia!
  2. Tenha também mais membranas de reposição, pois as membranas se desgastam com o tempo.
  3. Garrafas plásticas para a coleta de leite (150 e 240 mL): essa dica é relevante. No começo eu usava frascos de vidro que vinham com o kit extrator da loja onde aluguei a bomba, mas os frascos eram pesados e acabavam diminuindo minha produção de leite. No fim passei a usar as garrafas plásticas da mamadeira, que se acoplavam diretamente no kit extrator, e funcionou muito bem. Se você tiver muito leite, vale a pena comprar garrafas de 8oz (240 mL), para evitar ter de trocar a garrafa no meio da ordenha.
  4. Esterilizador de mamadeira de micro-ondas: para esterilizar o material da coleta de leite, muito mais rápido que ferver na panela, além de mais seguro (evita queimaduras) – importante: antes do 1o. uso, lavar as peças e esterilizar em água fervente.
  5. Lubrificante: pelo menos no início, até os mamilos se acostumarem com a sucção da bomba, usar um lubrificante (lanolina ou óleo de côco traz mais conforto no momento da ordenha).
  6. Com que frequência tirar leite e por quanto tempo: aqui vai a parte mais dura da jornada, o início… Para se estabelecer uma boa produção de leite ao longo do tempo, o ideal nas primeiras 12 semanas após parto é bombear de 8 a 10 vezes, ou seja, no máximo a cada 3 h do dia, inclusive de madrugada. Aliás, de madrugada o corpo produz mais prolactina, hormônio responsável pela produção de leite. Bombear 2 vezes de madrugada, entre 1 e 5 da manhã, ajudará bastante no estabelecimento de uma produção robusta de leite. (Eu só fui descobrir tudo isso com 13 semanas pós-parto, no começo eu só conseguia tirar leite 3 vezes por dia, e nunca em horários fixos, pois ainda estava em livre demanda, sempre complementei com fórmula. Fui aumentando a quantidade até chegar a 5 por dia, que era o factível para minha rotina). Cada ordenha deve durar no mínimo de 15 a 20 minutos, e deve-se ordenhar por mais 5 minutos após a última gota de leite sair. Algumas vezes ocorre mais de uma descida de leite por ordenha, pois a oxitocina, hormônio responsável pela descida do leite, é liberado em ondas, então é bom ordenhar por esse período adicional de 5 minutos, pois pode sair um pouco mais de leite. Recomenda-se um mínimo de 120 minutos de ordenha por dia nessas 12 primeiras semanas. A quantidade de ordenhas no início é muito importante, pois simula a demanda do bebê: 4 ordenhas de 30 minutos no dia não estimulam tanto a produção de leite quanto 8 ordenhas de 15 minutos. São essas semanas que definirão a quantidade de leite que será produzida nos próximos meses. É importante tirar leite até o esvaziamento das mamas, pois deixar leite na mama pode causar entupimento de ductos lactíferos, que ficam doloridos, além de diminuir a produção de leite.

Calma, antes de pensar em desistir por causa das 12 primeiras semanas, após esse período, é possível ir reduzindo o número de ordenhas gradativamente depois que a produção de leite estiver estabelecida. O intervalo entre a redução do número de ordenhas (1 mês, 2 meses) dependerá do seu objetivo final (6 meses, 1 ano, 2 anos). Depois que a produção de leite estiver consolidada, ao reduzir uma ordenha por dia (aumentado o espaçamento de tempo entre uma ordenha e outra), perde-se um pouco de volume 30 mL, 60 mL – varia de mulher para mulher, mas depois que o bebê passa a comer sólidos a quantidade de leite que o bebê ingere por dia tende a diminuir).

Sugestão de cronograma de ordenhas para quem pretende tirar leite por 1 ano (Fonte: Pinterest, adaptado):
8 ordenhas/dia (até 3 meses) 7, 10, 13, 16, 19, 22, 1 e 4 h
7 ordenhas/dia (4o mês) 6, 9, 12, 15, 18, 22, 2h
6 ordenhas/dia (5o e 6o mês) 7, 10, 14, 18, 22, 2h
5 ordenhas/dia (7o e 8o mês) 6, 10, 14, 19, 22:30h
4 ordenhas/dia (9o mês) 6, 11, 16, 21h
3 ordenhas/dia (10o mês) 6, 13, e 21h
2 ordenhas/dia (11o mês) 7, 19 h
1 ordenha/dia (12o mês) 6h

Esses horários podem ser alterados para melhor encaixe da rotina da família como um todo. No meu caso, quando saí de 4 ordenhas para 3 por dia, o volume de leite caiu bastante. Se seu objetivo for dar leite materno por mais de um ano, minha sugestão é continuar com 4 ordenhas até 1 mês antes da data estabelecida para o “desmame”. Quando os dentinhos do meu baby começaram a nascer, tive de reduzir o número de ordenhas, pois ele acordava muito durante as sonecas, que era o meu horário mais tranquilo para ordenhar…

  1. Estabeleça uma meta: 1 mês, 6 meses, 1 ano…. Eu inicialmente queria dar leite materno até os 2 anos, para seguir a recomendação da Organização Mundial de Saúde. Estou com 11 meses, minha produção de leite está baixa, estou lutando para completar 1 ano. Seria ótimo tirar leite até passar a cirurgia do palato (com 18 meses), pois o leite materno ajuda na recuperação (percebi isso com a primeira cirurgia, aos 5 meses). Ter um objetivo quantificável ajuda a atravessar os momentos mais difíceis (sim, dá muita vontade de desistir, principalmente no começo). Como dizem no grupo do Facebook: nunca desista em um dia ruim. Avalie seu objetivo, sua situação e cansaço, e verifique o que pode ser ajustado. Eu tentei uma época tirar leite 6 vezes por dia, ficava muito cansada, então reduzi para 5 e me permiti dormir um pouco mais, e ser uma mãe mais calma e paciente para o meu filho por estar mais descansada.
  1. O bebê pode ajudar! O contato pele a pele, o toque da língua do bebê no mamilo estimula a produção e a descida do leite. Quando for dar a mamadeira com o leite, você pode levar o bebê ao seio antes (ou depois também, o que funcionar melhor para vocês). Os americanos chamam esse contato de “comfort sucking”, sucção para conforto do bebê. Eu consegui fazer isso nos 2 primeiros meses, depois meu bebê já não queria mais nada com meus mamilos, mas eu dava a mamadeira com o rostinho dele bem encostado no meu seio, e isso ajuda também.
  1. Use as mãos (hands on pumping): como eu produzia pouco leite, tentava extrair o máximo em cada ordenha. Descobri que massagear as mamas, antes e durante a ordenha, ajuda a aumentar o volume coletado. Segue o link de um vídeo produzido pelo grupo de pesquisa da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que ensina como massagear as mamas durante a ordenha:

http://med.stanford.edu/newborns/professional-education/breastfeeding/maximizing-milk-production.html

  1. Algumas técnicas para aumentar a produção de leite usando a bomba:

– Power pump: ordenhar até esvaziar a mama, pausar por 10 minutos, ordenhar 10 minutos, pausar 10 minutos, ordenhar 10 minutos. Ajuda a aumentar a produção de leite nas ordenhas seguintes

Pumpathon”, a maratona da ordenha: recomendo fazer em um fim de semana, quando marido e parentes podem ajudar, cuidando do bebê. Ordenhar a cada 2 horas por 24 h, ajuda a aumentar a produção de leite nos dias seguintes. É exaustivo, eu só consegui fazer uma vez.

Cluster pumping: ordenhar a cada meia hora, por meio período (por exemplo, 6 h no total). Funciona como uma mini-pumpathon.

10. Teste o leite congelado: se você pretende congelar leite em grandes volumes, é bom testar se o seu bebê aceita tomar leite que foi congelado. Algumas mulheres produzem em grande quantidade uma enzima chamada lipase, que hidrolisa a gordura do leite, alterando o sabor do mesmo. Alguns bebês não aceitam bem leite que foi congelado por essa razão. Se esse for seu caso, você pode “escaldar” o leite antes de congelar: colocar o leite ordenhado numa panela limpa, aquecer mexendo suavemente até formar bolhas na borda da panela, resfriar rápido (por exemplo, colocar a panela num banho de gelo) e colocar nos recipiente em que você vai congelar. Esse procedimento eu peguei de posts na comunidade “Exclusively Pumping for Cleft Cuties” no Facebook. Pessoalmente eu nunca usei porque não produzia muito leite, mas uma amiga passou a fazer antes de congelar leite e o filho dela que não tomava leite congelado, passou a aceitar bem.

  1. Apoio do marido, do parceiro(a), da família: ordenhar leite toma muito tempo, e também gera uma quantidade de “louça” enorme para lavar: garrafas coletoras, kits extratores… Apoio moral (entender que você estará extremamente ocupada nos primeiros meses com o bebê e com a ordenha) e apoio prático (dar mamadeira, ajudar a lavar louça) contribuirão em muito como sucesso da jornada. Eu sentei com meu marido no início, explicando o quão importante para mim era esse processo, o quanto queria muito dar leite materno para nosso bebê, para que ele recebesse todos os benefícios de saúde e crescesse forte e saudável, e que isso era uma forma emocional de eu compensar a falta de aleitamento materno direto no seio. Tenho muito a agradecer ao meu marido, que me apoiou integralmente nessa decisão, e entendendo as restrições que isso traz na vida social e nos horários de lazer (fica bastante complicado fazer passeios longos nos meses iniciais, em que as ordenhas são mais frequentes).
  1. Entre em um grupo de apoio: é bom desabafar, ouvir ou ler histórias de pessoas que estão passando por situações parecidas que a sua. Encontrar o grupo “Exclusively Pumping for Cleft Cuties” foi uma tábua de salvação, pois lá encontrei apoio, acolhida, e respostas para muitas dúvidas e angústias, não só sobre produzir e ordenhar leite materno, mas também sobre as cirurgias, pós-operatório, alimentação, sentimentos de culpa e fracasso… Quantas vezes, após ordenhar leite às 3 da manhã, me sentindo miserável, entrei no grupo e lia o post de outra mãe: estou tirando leite de madrugada, todos em casa estão dormindo, me sinto só e exausta” e também via as respostas: “você não está só, também estou acordada tirando leite”, ou “Aguente firme, Mamãe! Você está fazendo um excelente trabalho!”. Eu também fiz amizade com uma mãe brasileira que mora no Paraguai, e que também tira leite, nós damos apoio moral uma a outra por Whatsapp, trocamos dicas sobre tirar leite e também sobre os cuidados e tratamentos dos nossos bebês.

O texto foi longo, e espero que possa ajudar quem quiser trilhar a jornada de EPing (Exclusively Pumping Mom). Coloco-me à disposição para esclarecer dúvidas e dar apoio, meu email é: cristina.lui@bol.com.br

Um grande abraço,

Cristina

Jundiaí, 16/10/2015.

Fonte de pesquisa:

http://kellymom.com/mother2mother/exclusive-pumping/

http://www.exclusivelypumping.com (eu comprei o livro na versão Kindle, da autora Stephanie Casemore, e encontrei dicas utilíssimas. Infelizmente, só está disponível em inglês)

Facebook: procurar pela comunidade privada Exclusively Pumping for Cleft Cuties

NOTA de As Fissuradas: A Cristina entrou em contato conosco para compartilhar tanto dela, de sua experiência na ordenha do leite materno, as informações que coletou sobre este assunto e, muito mais, a Cristina entrou em contato conosco para compartilhar AMOR!

O nosso profundo e sincero agradecimento!!!