O que tira o sono das mães: alimentação do bebê fissurado

Assim como para toda nova mãe a alimentação foi a maior dor de cabeça e as novas mães de fissurados sempre me perguntam, como ele vai se alimentar? Existem diversas formas e cada mãe precisa encontrar a melhor para seu filho. Eu percebia quando ele engasgava se o fluxo do leite estivesse muito forte, ou quando chorava por não estar recebendo leite suficiente, isso requer observação e testes, até acertar, quando você acerta a mamadeira sente que ganhou na mega-sena.

Luigi mandando ver em seu almoço.

Veio então a primeira cirurgia (queiloplastia) aos 4 meses, ficamos tensos pois ele já mamava muito bem e ficamos preocupados que isso desandasse, usamos uma mamadeira especial que despejava o leite sem precisar de esforço, com paciência, em uma semana parecia que nada tinha acontecido, ele já estava adaptado à nova boca, mas nós ainda sentíamos uma grande saudade do sorrisão.

Depois veio a introdução alimentar, que aqui foi feita com muita tranquilidade, desde o início usei alimentos amassados (não passados no liquidificador) e oferecia pedaços também. É de suma importância estudar sobre introdução alimentar, não por ser um bebê fissurado, mas pra garantir uma alimentação saudável e uma melhor aceitação que essa criança carregará pra vida. Somando um bebê esfomeado e um buraco no palato, claro que aconteceram alguns engasgos e foi super importante saber manobras de desengasgo. Tudo precisa ser feito com segurança (respeitando a condição específica de cada criança), porém sem menosprezar as necessidades de desenvolvimento, já que também precisam explorar, experimentar, sentir, ter autonomia – para assim poder desenvolver uma relação prazerosa com a alimentação. Lembrando que é importante manter o respeito, jamais forçar uma criança a mamar ou a comer, pois ela precisa aprender a se autorregular, comer quando sente fome e parar quando estiver saciada. As necessidades de cada criança são individuais, nem todas precisam comer muito, se não comeu em uma refeição provavelmente irá comer melhor na próxima, não se desespere e respeite os limites, caso tenha dúvidas ou sinta necessidade procure uma nutricionista infantil, eu procurei e me ajudou muito.

Desde o início compreendi a importância de se alimentar bem e para que isso acontecesse aprendi : a deixar a criança pegar na comida e se sujar, que jogar no chão faz parte do aprendizado (sim eu sei, dá um trabalhão), que não adianta eu tentar forçar a criança para comer, se quiser envolvê-la preciso conversar, contar historinhas, brincar, mas não colocar um tablet ou TV, pois com isso ela perde concentração na ação de comer, virando um robô que abre a boca sem ter ideia do que está comendo e quanto está comendo – consciência essa super importante para uma boa relação com a comida.

Não gostamos de ver nossos filhos com fome, ou sem comer, mas é necessário manter a calma, a tranquilidade e ter paciência, pois quando ficamos nervosas eles sentem e irão refletir. Oferecer uma alimentação de qualidade e ter certeza que mesmo se comer pouco estará comendo algo saudável que verdadeiramente nutre, ajuda muito. Quando cedemos para trocar por guloseimas as crianças tendem a se tornar mais seletivas e recusar mais outros alimentos, dessa forma fica mais complicado pelo ponto de vista nutricional. Uma boa nutrição é importante não só para o crescimento, mas também para a recuperação de cada cirurgia.

Quando chegou a hora da segunda cirurgia (palatoplastia) nos preocupamos novamente, com  1 ano tínhamos um bebê que comia tudo, mastigava pedaços grandes, nem de sopa gostava e agora teríamos que passar tudo no liquidificador e coar depois. Dez dias antes da cirurgia iniciamos uma preparação, fomos dando essa alimentação de vez em quando para ele se acostumar, fomos explicando e conversando, assim, após a cirurgia não seria tão novidade assim. Claro que ainda teríamos que lidar com o fator dor. Recebi a impagável dica que nos primeiros dias oferecesse mais os líquidos naturalmente doces, alternando entre sucos e vitaminas de frutas uma vez que os salgados poderiam incomodar mais no local operado. Ele aceitou muito bem, tomava grandes volumes, oferecíamos de 3 em 3h, não passou fome e com apenas 3 dias já aceitou a sopa. Após a liberação do cirurgião fomos voltando a espessar a alimentação, fazendo a transição de volta demoramos 1 mês, até ele estar novamente comendo em pedaços. Com relação à alimentação aprendi que o resultado que colhemos vai depender muito do caminho que trilhamos. Passamos por várias dificuldades, uma vez que além do fator cirurgias, as crianças mudam o tempo todo, então é preciso ter muito foco e determinação para seguir no caminho correto. Não cheguei no final do caminho ainda, mas até aqui eu garanto, dá trabalho mas vale muito a pena.

Christina Bona

Mãe de 👦🏻👦🏼
Educação e Parentalidade Positiva – EPEP- Portugal
Educadora Parental em Disciplina Positiva PDA-EUA
Orientação individual e Workshops

Como é a introdução alimentar para bebês com fissura labiopalatina?

Foto: Luiza Pannunzio

Chamamos de complementares, todos os alimentos que oferecemos aos bebês que não seja o leite iojaterno ou as fórmulas lácteas em pó. Sua introdução deve se iniciar aos 6 meses de idade para TODOS OS BEBÊS, com fissura labiopalatina ou não, porque apenas o leite, seja materno ou fórmula, já não dá conta das necessidades nutricionais, a partir desta idade. Daí a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial de Saúde terem feito esta recomendação de modo a não sobrecarregar o aparelho digestivo e manter o crescimento e desenvolvimento saudáveis do seu bebê.

Chegou a hora da comidinha!!!

Muita calma nesta hora…nada de pressa!! Mas… muita persistência!!!

A partir do 6º mês o bebê está prontinho para descobrir novos sabores e explorar com as mãozinhas as texturas e também para aprender a mastigar.

Então os alimentos devem ser oferecidos separadamente, sabor, por sabor.

Estimule a pegar com as mãos e deixe a bagunça rolar. Não fique tensa…um pouquinho de água e sabão limpa tudo e seu amado filhinho terá um aprendizado nutricional tão importante que influenciará sua saúde pelo resto da vida. Estará também treinando sua musculatura facial o que ajudará na fala!!!

Comece com alimentos bem cozidos, amassadinhos, raspadinhos ou cremosos e, aos poucos vá evoluindo para pedacinhos maiores, de modo que, próximo a 1 ano de idade, seu filho já esteja cortando pedaços com os dentinhos e mastigando. Evite bater no liquidificador!!

Fonte: robertocooper.com

Fonte: menudobebe.blogspot.com

 

 

 

 

Aos 6 meses de vida iniciamos o ALMOÇO com cereais, legumes e caldo de carne. Comece com 3 colheres de sopa e vá aumentando aos poucos. Ofereça fruta de sobremesa.

 

Aos 7 meses, iniciamos o JANTAR nos moldes do almoço.

 

Com 8 meses, as leguminosas podem ser introduzidas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico). Comece com 1 colher de sopa e aumente devagarzinho pois podem dar gases.

 

 

O ALMOÇO e o JANTAR devem conter:

 

Alimentos energéticos (ricos em carboidratos que fornecem energia para o organismo do bebê): arroz integral, aveia, batata, batata-doce, cará, farelo de cereais, farinha de mandioca, fubá, inhame, macarrão integral, mandioca, mandioquinha, milho verde.

 

Alimentos construtores (ricos em proteínas vegetal e animal, responsáveis pelo crescimento do bebê): carnes de gado, de frango, miúdos de gado e de frango (coração, moela, fígado, miolo, etc), peru, peixe (cuidado com a espinha!), feijões, ervilhas, lentilhas, grão-de-bico e ovos (galinha, pata, codorna)

 

Alimentos reguladores (vitaminas e sais minerais que auxiliam no desenvolvimento imunológico, neurológico e cerebral; na formação de enzimas e hormônios; no crescimento ósseo, etc.):

  • verduras e legumes: abóbora, abobrinha, acelga, agrião, alface, almeirão, berinjela, bertalha, beterraba, brócolis, cambuquira (rama da abóbora), cenoura, chuchu, couve, couve-flor, escarola, espinafre, folhas de beterraba, folhas de cenoura, jiló, quiabo, repolho, rúcula, etc.
  • frutas (abacate, abacaxi, açaí, acerola, ameixa, amora, banana maçã, banana nanica, banana ouro, banana prata, cajá, caju, caqui, carambola, goiaba, jaca, jenipapo, kiwi,laranja lima, laranja pêra, maçã, mamão, manga, mangaba, melancia, melão, mexerica, murgote, nectarina, pêssego, pêra, tangerina, uva, etc.

 

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES:

 

  1. Coloque 1 ou mais alimentos de cada grupo nutricional no almoço e no jantar.
  2. Use a criatividade e fará combinações incríveis!!
  3. Não limite seu filho ao “seu” paladar…ofereça de tudo…isto é um aprendizado!
  4. Inicie o ovo, bem cozido, oferecendo ¼ da gema e aumentando aos poucos (3-4 dias) até estar oferecendo o ovo inteiro, sempre bem cozido. Fonte de proteínas, vitaminas e Cálcio que atuam no crescimento infantil, é rico em em ácidos DHA e ARA que auxiliam o desenvolvimento dos sistemas nervoso e cerebral do bebê.
  5. Se possível, não ofereça sal nem açúcar! Não precisamos predispor o bebê à pressão alta e diabetes, não é?
  6. Óleos vegetais (milho, canola, girassol, soja), só em pequenas quantidades. O azeite de oliva extra-virgem é o melhor de todos, pois contém compostos antioxidantes que beneficiam o coração e compostos fenólicos que evitam o envelhecimento da célula.
  7. Mel, após 1 ano de idade pois pode estar contaminado com a bactéria Clrostidium botulinum que transmite o botulismo, doença que paralisa nervos e músculos. Claro que é raro de acontecer, mas, como o sistema nervoso do bebê ainda é imaturo, melhor prevenir!!!
  8. Temperos??? Só os naturais como cebola, alho, salsinha, etc., pois são de fácil digestão e fonte de vitamina A, vitamina B1, vitamina B2, vitamina C, Vitamina D, cálcio, enxofre, ferro, fósforo, magnésio, potássio, etc.
  9. Evite os sucos de frutas! Ofereça a fruta! Os sucos geralmente têm alto índice glicêmico que pode predispor a criança ao diabetes. Além disto, são pobres em fibras.
  10. Ofereça um alimento novo por vez, assim, seu bebê será estimulado a brincar e explorar sabores e texturas, relacionando o sabor de cada alimento à sua aparência.
  11. As frutas cítricas (abacaxi, acerola, ameixa preta ou vermelha, kiwi, laranja, mexerica, morgote, poncã, etc.) devem ser oferecidas após o almoço e jantar para ajudar na absorção do ferro dos outros alimentos e evitar anemia.
  12. Não ofereça alimentos industrializados como bolachas, refrigerantes, salgadinhos, sucos de pozinho ou garrafinha, frituras, sorvetes, doces, etc. Possuem muito sal, açúcar e/ou gorduras hidrogenadas. Só fazem mal à saúde!
  13. O aparelho digestivo do bebê vai estar se adaptando à introdução destes novos alimentos, aos poucos. Se seu bebê apresentar gases, reações alérgicas na pele ou alteração do funcionamento intestinal, suspenda o alimento e procure seu pediatra.

 

 

“Nutrir uma criança com fissura labiopalatina não é tarefa difícil, traduzindo-se em experiência gratificante quando se observa a surpreendente capacidade de adaptação destas, desde as idades mais precoces” (Suely Prieto de Barros)

 DÚVIDAS????… Comente no post e assim continuamos nossa conversa!!!!!

 

Dra Suely Prieto de Barros

Nutricionista HRAC/USP

CRN3- 1387